|
|
|
|
Revista "ESTUDOS"
Editorial do nº 1 da Nova Série dos ESTUDOS
Por José Carlos Seabra Pereira
Eis-nos no limiar da nova série de Estudos, cônscios das responsabilidades que decorrem quer do seu papel na prossecução dos desígnios do CADC, quer do seu próprio historial de formação e apostolado. Desde que recolheu o testemunho legado pelos Estudos Sociaes e pel’ O Imparcial, esta revista soube, ao longo de décadas, pôr-se em lúcida e fiel equação com o devir sociocultural. Agora, como então, os Estudos querem representar, para a acção do CADC revivificada pelos dons do Espírito Santo, um meio privilegiado de cultivar o diálogo entre a Fé e os vários domínios do Saber e da Criatividade, aplicando as energias da inteligência à solução cristã dos problemas culturais e sociais do nosso tempo. Cientes de que a sua vivência religiosa era penhor de liberdade espiritual, os sucessivos responsáveis pelos Estudos souberam integrar o órgão do CADC na aventura do Tempo em que as Sagradas Escrituras tanto nos edificam, pelos caminhos trilhados desde Abraão a São Paulo. E assim souberam, de modos coerentemente variáveis, preservar as constantes doutrinais decorrentes da fidelidade à divisa e ao programa do CADC no próprio processo de abertura aos desafios da historicidade, até aos dias da viragem dos anos sessenta para os anos setenta do século XX. Muitos de nós, que agora nos reencontramos no CADC e nos Estudos, vivemos os riscos e as promessas dessa época. Inquietação e mensagem estavam no coração do nosso estar no mundo; e sem elas não sabíamos viver as nossas relações interpessoais e a dimensão pública da nossa existência. Inquietação e mensagem geravam o debate ou o apelo, o dissídio ou a coesão; mas, em qualquer dos casos, desterravam das nossas vidas a abstenção, a indiferença, o cinismo. Então, para boa parte de nós, a inquietação era o frémito da Presença divina; e a mensagem era o anseio de a todos religar nessa Presença. Reconhecíamo-nos sob esse signo; e, abertos à mútua compreensão mas convictos da Verdade indispensável, buscávamos a resposta para aqueles que contestavam ou negavam as luzes da Fé e recusavam ou combatiam a presença viva de Cristo. Eram tempos de confronto ideológico, em que por vezes nos deixámos dividir entre «integristas» e «progressistas». Por outro lado, enquanto até os contributos históricos do Cristianismo para a promoção dos valores humanistas eram postos em causa ou subvertidos, parte dos universitários e intelectuais cristãos começou a adoptar a atitude de cúmplice cedência, diluindo a especificidade religiosa da mundividência cristã em favor da mera componente ético-social. Numa espécie de vertigem de laicização do Cristianismo (como diagnosticava Daniélou), foi-se esbatendo assim o sentido do Sagrado, a doutrina e a aspiração escatológicas, a integração das militâncias no desígnio de comparticipar na obra inacabada da Criação divina e no processo de resgate do mundo em ordem à Parusia. Depois vieram os tempos das euforias revolucionárias e das seguintes acalmações, em que inegáveis rasgos de generosidade humanista conviveram com equívocos de muita alma em desalinho e com atitudes de hostilização sumária ou de instrumentalização da religiosidade institucionalizada. Apesar de tudo, foram tempos que motivaram exames de consciência, rectificações de comportamentos, assomos de coragem na pública reafirmação da Fé e do desejo de reinstaurar os critérios de Cristo na cidade dos homens. Mas, sem se quererem dar por acossados, os académicos cristãos foram desertando do debate cultural e deixando ofuscar as relações da Fé com o filosofar, com as ciências, com as artes; e alguns foram mesmo abrindo caminho inadvertidamente para os que hoje querem acantonar a vivência religiosa em domínios cada vez mais recolhidos, fora do espaço público onde o fulgor da Cruz devia iluminar a vida quotidiana de relação. Atravessámos, enfim, o nosso fim de século, com os relativismos pragmáticos no pensamento dominante, com os sucedâneos hedonistas para as razões de viver, com os equívocos de religiosidade pagã para aquele módico de insatisfação das almas ainda não de todo saciadas na libido consumista, nem de todo esgotadas na luta pela notoriedade dentro de uma sociedade-espectáculo. As palavras «inquietação», «mensagem», «Presença» caíram em desuso, porque parecia já não habitar entre nós o Espírito que por elas se comunicava. No dealbar do novo século (e de novo milénio, iniciado sob o signo refontalizante do Jubileu), o relançamento dos Estudos, no quadro da reanimação do CADC, pretende também constituir um sinal de vontade de sacudir esse torpor espiritual e de assumir a própria crise do passado próximo como oportunidade que ao CADC e aos Estudos foi oferecida de renovarem a consciência da sua vocação perene nas suas mutáveis condições de existência. Num tempo em que a recorrente tentação titânica do homem moderno abandona a negação frontal de Deus e a frontal recusa de ordenar todas as coisas a Deus, para assumir uma feição light e por isso mais insidiosa – dispensar Deus como desnecessário para se fazer o bem, advertia já Claudel, e até rasurá-l’O do horizonte humano pela mera inércia do alheamento –, os Estudos procurarão promover no meio académico a atitude correspondente à interpelação de Teilhard de Chardin para quem a descrença circundante se alimenta afinal da incapacidade dos próprios cristãos viverem integralmente a sua Fé, colocando-se na dianteira da espiritualização dos valores terrenos e da construção amorosa do Futuro. Órgão do CADC, os Estudos regressam com renovado espírito de atenção e abertura a todas as questões candentes da nossa circunstância e a todos os interesses e realizações superiores do Homem contemporâneo; mas regressam também com renovado ânimo de empenhamento num princípio de verdade – superando os embaraços ou armadilhas do cepticismo em relação ao alcance das faculdades que, para tanto, nos foram concedidas por Deus, fonte da Verdade. Sem prejuízo da pluralidade de colaborações que não deixará de solicitar ou acolher, os Estudos continuarão a manifestar uma Consciência cristã que nada teme das dúvidas e questionações que a Filosofia e a Ciência, a Ética e a História suscitam, antes as encara como vias do imperativo de «amar a Deus com toda a inteligência» (que Cristo evidenciava na resposta evangélica à inquietação ascensional do Homem). Nos Estudos prevalecerá, pois, a confiança de que toda a séria interrogação e toda a recta problematização podem conduzir ao «Meu Senhor e meu Deus!» do discípulo incrédulo. Animados por esse espírito, os Estudos sentem-se chamados a intervir numa atmosfera mental que se esquiva ao acto religioso fundamental de reconhecimento da dependência ontológica do Homem perante Deus, que foge a radicar a comunhão humana na Comunhão divina e que desatende à lição de Paul Ricoeur, segundo a qual a visão escatológica cristã comunica alento profético e confere eficácia temporal à acção em prol da Justiça e da dignidade humana. Ao mesmo tempo, os Estudos sentem-se chamados a intervir num contexto sociocultural em que cada vez mais se alargam e aprofundam os domínios aonde chega a liberdade do Homem e aonde ele tem de a exercer eticamente – porque só agora aí vão chegando os seus recursos cognitivos e os seus dons criativos. Por consequência, em dialogante reacção àquela atmosfera mental, os Estudos procurarão contribuir para que, nesses novos domínios como em todos os espaços de inteligibilidade da Vida e de responsabilidade pela Vida, o homem de cultura actual saiba configurar a sua presença no Mundo à imagem e semelhança do cego da narrativa evangélica que procura Jesus Cristo porque quer ver e que, alcançando efectivamente ver, segue Jesus Cristo, em trajecto de livre conversão pessoal.
|
| |||
|
| |||||
|
|
|||||
Copyright © CADC. Todos os direitos reservados.
Actualizado em: 18-02 2009.