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lacoazulantiabortoSanta Gianna Beretta Molla (1922-1962)

 

Medicina e Maternidade amoris causa

Por Margarida Miranda e Isaías A. Hipólito

 

Professores da Fac. de Letras da Univ. de

Coimbra e Univ. Católica Portuguesa, resp.

 

Aos olhos da razão dominante, pão nosso de cada dia servido por uma comunicação social vertiginosamente uníssona, narcísica e global, subsistem dois corpos irredutivelmente rebeldes ao projecto pós-moderno de família humana saído das entranhas do Estado de Direito moderno. De um lado o corpo estranho – questão fracturante, no dizer das nossas mais altas instâncias – do feto indesejado. E, do mesmo lado, a Igreja Católica, com o seu corpus doutrinal em prol da vida humana não nascida.

A situação a que chegámos tem sido qualificada como “absolutamente trágica” por um autor francês muito citado. Saíram recentemente do seu punho estas palavras pungentes:

a atitude da Igreja Católica, ou, melhor dizendo, a do Vaticano, desconsiderada por uma boa parte do seu clero, ridicularizada pelo universo inteiro, bode expiatório quase oficial dos media e de toda a intelligentsia mundial, tem algo de heróico, tanto mais quanto esse heroísmo nem sequer é reconhecido. Somos cada vez menos capazes de saudar, ou mesmo de respeitar as verdadeiras dissidências. No fundo, o que encoleriza o mundo é o facto de que, longe de provar a hipocrisia que sempre se reprova nela, longe de enveredar por uma atitude política, neste ponto [o aborto] a Igreja agarra-se com toda a firmeza à sua doutrina de sempre. Ao proceder desse modo, a Igreja permanece fiel à sua atitude fundamental, que consiste em colocar uma certa definição de graça e de pecado acima de todos os imperativos puramente mundanos[1].

Vem este preâmbulo a propósito de, no passado dia 16 de Maio de 2004, ter sido solenemente proclamada Santa pelo Papa João Paulo II (1922-1962) a médica pediatra e ginecologista, esposa e mãe de quatro filhos, Gianna Beretta Molla, natural da Arquidiocese de Milão.

O decreto em que a Santa Sé anunciava a canonização de Santa Gianna apresenta sucintamente o perfil (muito ao arrepio da tal razão dominante, conforme se verá) da sua vida cristã. “Amadureceu a sua fé na família, na Acção Católica e na profissão médica, que exerceu com competência e atenção aos doentes”; “viveu o matrimónio e a maternidade com alegria, generosidade e absoluta lealdade à sua missão”. O documento salienta, a encerrar, a razão ética subjacente à morte prematura de Gianna: “na quarta gravidez, livremente, decidiu sacrificar a sua vida para salvar a da menina que levava no ventre”.

Com efeito, no dia 21 de Abril de 1962, uma sexta-feira santa, nasceu Gianna Emanuela, perfeitamente sã. Mas para a mãe, minada por um tumor uterino que se desenvolvera a partir do segundo mês de gravidez, não havia qualquer esperança. Gianna Beretta Molla faleceria a 28 de Abril. Ainda não havia completado quarenta anos.

Graças aos bons serviços das Edições Paulinas, os leitores lusófonos que desejem saborear os meandros de uma existência comum extraordinariamente saturada de graça divina, já dispõem de uma biografia – PELUCCHI, Giuliana – Santa Gianna Beretta Molla : o Amor Maior. [Prior Velho] : Paulinas, 2004. Testemunhas e profetas. ISBN 972-751-611-4.

Sem prejuízo dos méritos da autora, uma jornalista de Milão, devemos salientar os limites da obra, tanto mais dignos de nota quanto, para todos os efeitos, o leitor está perante o género hagiográfico. Por conseguinte – eis o primeiro limite – não deveria faltar a referência à aprovação eclesiástica. No tocante às ideias subliminarmente propugnadas pela autora, verifica-se uma tendência – inconsciente, em nosso entender – para desligar a decisão heróica de Gianna Molla da sua componente conjugal. Apesar das referências invariavelmente abonatórias ao marido (Pietro Molla), o leitor desta biografia fica praticamente desguarnecido de dados para julgar a posição activa deste pai e marido perante o drama terrível que batera à porta da sua família. E nem sequer se afigura válido o argumento de que quem é biografado é Gianna e não Pietro. Levado às últimas consequências, tal argumento admite implicitamente o estafado tópico segundo o qual a bioética da gravidez não é assunto de maridos ou de pais biológicos; é assunto exclusivo da mulher “dona do seu corpo”…

Deverá, portanto, ser lida cum grano salis a obra de Giuliana Pelucchi. Foi o que procurámos fazer, e disso damos conta nas reflexões que se seguem.

 

1. Caso raro na tradição hagiológica da Igreja, o processo de canonização de Gianna B. Molla teve um desenvolvimento fulgurante, ao ponto de, na gloriosa cerimónia, em São Pedro, terem comparecido numerosos peregrinos com quem Santa Gianna privara em vida. Desde logo, toda a família Molla – o marido com quem partilhou escassos sete anos de vida conjugal, seus filhos (entre eles, Gianna Emanuela), e seus irmãos (um deles missionário capuchinho no Brasil, e uma irmã religiosa missionária na Índia). Mas não faltaram também numerosos devotos de todo o mundo, a começar pelos da diocese ambrosiana; uns que com ela se haviam cruzado no apostolado da Acção Católica  e das Conferências Vicentinas, e muitos outros provenientes das zonas em que Gianna se tinha prodigalizado durante muito tempo para tratar os seus meninos, para amparar as mães em risco de recorrerem ao aborto, para levar a sua preparação médica e a sua dedicação aos anciãos que haviam aprendido a considerá-la quase como filha.

 

2. A vida de Santa Gianna, concluída com aquele gesto bem discernido de doação, já se tornou um património de fé cristã. A tal ponto que, ao longo dos últimos 42 anos, tem impressionado profundamente, em todo o mundo, católicos, protestantes e muitíssimos homens e mulheres comuns.

É particularmente surpreendente que os acontecimentos miraculosos atribuído à intercessão de Gianna tenham ocorrido no Brasil, o primeiro dos quais a uma parturiente de 28 anos, de confissão protestante. O segundo milagre atribuído a Gianna, e reconhecido pela Igreja, é o nascimento justamente de uma menina brasileira, após uma gravidez com grave trauma, sem depois deixar vestígios, facto que até agora não tem antecedentes na história. O caso foi experimentado por Elisabete Arcolino Comparini. No início do ano 2000, o terceiro bebé que havia concebido começou a experimentar sérios problemas. No terceiro mês, a jovem mãe perdeu totalmente o líquido amniótico. O feto, sem a protecção natural, deveria ter perdido a vida. Mas, sem explicação científica, em Maio daquele ano nasceu, saudável, a menina.

O Brasil… Quão importante foi este grande país para Gianna Molla, durante os anos anteriores ao seu casamento! As missões no grande sertão brasileiro, onde militava um seu irmão capuchinho – também ele médico – representaram durante anos a fio, uma séria alternativa ao casamento, um campo imenso para o exercício da sua profissão em chave missionária.

Mas Santa Gianna é também património da humanidade. Além do relevo dado pela comunicação social à nova santa, o heróico testemunho de Gianna Beretta Molla como mãe de família, como mulher profissional e socialmente empenhada, cheia de alegria de viver, pronta a aceitar a vontade de Deus no quotidiano, tornou-se uma referência constante e segura, perante a qual se curvam hoje comunidades inteiras.

Causa espanto quantas igrejas, escolas, “centros de ajuda à vida” (mais de 230), associações médicas, praças, ruas, placas, medalhas e até composições musicais lhe têm sido dedicadas; quantos vitrais de templos e quantas pinturas reproduzem o seu luminoso sorriso.

Realçaremos, por todos, o Progetto Gemma, uma iniciativa nascida num pequeno grupo de amigos, que desde sempre se atormentavam pensando que poderiam prestar o auxílio necessário às mães que ponderassem o recurso ao aborto. Os fundadores do projecto (escassas três pessoas) propuseram-se oferecer a adopção pré-natal, à distância, às mães em risco de aborto, e não hesitaram em confiar, desde a primeira hora, a Gianna B. Molla, os seus esforços por salvar vidas humanas em risco de aborto. A oito anos de distância, em 2002, os voluntários que mantinham o projecto de pé faziam um balanço ao mesmo tempo jubiloso e inquietante: o Progetto Gemma respondera a centenas de pedidos provenientes dos Centros de Ajuda de toda a Itália, e assegurara os meios, muitas vezes decisivos, para salvar mais de seis mil crianças.

 

3. A magnanimidade que Gianna Beretta Molla encontrou para, num ímpeto de amor imprevisto e generoso, salvar a criatura que trazia dentro de si, não pode ser desligada de uma tensão espiritual contínua e sincera que caracterizou toda a sua existência.

Santa Gianna será recordada – e com toda a justiça – pela opção angustiante com que coroou, em odor de santidade, a sua existência terrena. Mas essa decisão de heroísmo maternal não deve ser desligada de uma opção fundamental por Cristo, interiorizada desde muito nova.

Ainda adolescente, durante os Exercícios Espirituais de 1938, Gianna exprime um propósito a cuja luz deverão ser interpretados, seja os gestos mais simples e humildes da vida quotidiana, seja o nobre exemplo que nos deixou. Escreveu:

Jesus, prometo-te submeter-me a tudo o que permitires que aconteça.

Dá-me só a conhecer a tua vontade.

Com estas palavras interpretou toda a sua vida como vocação, seguimento, resposta responsável.

A nossa felicidade terrena e eterna depende de seguirmos bem a nossa vocação

– acrescentará mais tarde. E o nosso olhar poderia alargar-se para incluir a moldura do quadro de santidade que unificou a existência de Gianna Molla, um quadro de adesão a Cristo e à Sua Igreja, tanto no ambiente do seu lar, como em toda a envolvente familiar em que Gianna Beretta nascera e crescera.

A Igreja, pela voz dos prelados de Milão (desde o Cardeal G. Montini, futuro Papa Paulo VI, ao Cardeal Carlo Martini) e do Papa João Paulo II, não cessa de exaltar a virtude heróica de Santa Gianna e de a ligar, quer a um quotidiano de santidade que viria a culminar na sua doação suprema, quer à nuvem de santos anónimos que a nova Santa representa. Na homilia da beatificação, em 24 de Abril de 1994, o Papa concluiu a homilia dizendo,

ao exaltarmos a figura da nova Beata, estamos a exaltar todos os sacrifícios, toda a generosidade, todo o élan heróico de muitas mães, isto é, exaltamos uma figura para exaltar muitas outras que conhecemos, com quem já contactámos.

É uma beatificação que diz respeito a muitas outras mulheres e não apenas a uma só pessoa.

“Mostrar a santidade é mais que nunca uma urgência da Pastoral” – afirmará também o Santo Padre na Novo millenio ineunte, 30 – uma urgência, em particular, para uma Europa e um País como o nosso, desejoso de riscar do seu património humanista palavras transmitidas há quase dois mil anos pelos autores da Didaché (2,2): “não assassinarás o filho por aborto, nem o matarás quando nascido”.



 

[1] GIRARD, René - Quand ces choses commenceront. [Paris]: Arléa, cop. 1994. ISBN 2869592000 (pbk.)

 

Santa Gianna Molla

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1. O aborto nos ESTUDOS | 1. João Paulo II | 2. Madre Teresa | 3. Conferência Episcopal Portuguesa | 4. D. José Policarpo | 5. D. Albino Cleto | 5. Consequências...

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Actualizado em: 18-02 2009.